Tuvalu, um símbolo mundial
Tuvalu é o nome actual das antigas Ilhas Ellice: superfícies imersas com apenas 26 km2, numa zona exclusiva de 0,75 milhão de km2 e 10.000 habitantes.
Atol de Funafuti. Vista do mar.
© Hegel Goutier
Bastam algumas vagas, um pouco mais altas do que o habitual, para ser necessário tomar uma barca para ir da pista de Funafuti, que é o atol capital de Tuvalu, ao bar do aeroporto. Tuvalu agrupa um destes conjuntos de ilhas que emergem ligeiramente acima das águas do mar, sob a ameaça permanente de tsunamis e outras catástrofes naturais.
28 de Fevereiro de 2006 foi um dia de terror em várias das nove ilhas do arquipélago de Tuvalu, sobretudo em Funafuti. O atol estende-se num arco de círculo de 12 quilómetros entre a lagoa e o oceano, com uma largura que nunca excede 400 metros e vai-se estreitando à medida que se aproxima das duas extremidades. Culmina a 3,7 metros. Bastou uma vaga de 3,5 metros, a mais alta registada nestas costas, vindo morrer sem muita força, para inundar nesse dia uma boa parte da ilha – o aeroporto ficou mais uma vez submerso – e, ao retirar-se, deixou bolsas de água salgada venenosa para as plantas alimentares. Embora esta inundação seja excepcional, acontece regularmente que, com as grandes marés, as ilhas de Tuvalu fiquem parcialmente submersas.
As inundações carreiam imensas calamidades: os parcos lençóis freáticos ficam contaminados e a água salobra estagnada infiltra-se nas fossas de esgotos e mistura-se com os depósitos de imundícies que enchem as fossas cavadas na altura da Segunda Guerra Mundial. Neste contexto, a agricultura é cada vez mais aleatória.
Deterioração cada vez mais acentuad
As observações científicas e empíricas comprovam o agravamento da situação nas ilhas de Tuvalu. O nível do mar em volta dos atóis, segundo os dados fornecidos por um sistema australiano de observação das marés, subiu sete centímetros nos últimos 13 anos, ultrapassando assim o simples efeito mecânico do degelo dos glaciares. Na opinião dos peritos, para isso terão provavelmente contribuído outros factores, como El Niño, por exemplo. Um sinal significativo desta deterioração é a imersão de uma porção do atol de Funafuti. A ilhota Tepuka Salivilivili desapareceu na água depois de ter perdido, numa fase anterior, os seus coqueiros.
Pessoas idosas comunicaram a O Correio o resultado das suas observações: as chuvas são cada vez mais raras, mas paradoxalmente cada vez mais fortes e tempestuosas, capazes de abrir brechas na terra em locais frágeis, como nos pontos de escavação destas fossas da guerra, o que terá prejudicado o desenvolvimento do pulaka, um tubérculo essencial à alimentação local, que normalmente atingia um metro de comprimento e tornou-se cada vez mais raquítico, estando mesmo em vias de extinção.
Sensibilização precoce
A população de Tuvalu apercebeu-se rapidamente do perigo. A partir de 1992, altura em que ainda se discutia a realidade ou não das alterações climáticas, os sucessivos governos de Tuvalu accionaram o alarme sobre a catástrofe que estaria, pensavam, a ameaçar o país. No início, as suas preocupações não tiveram muito eco. No entanto, a sua perseverança e o apoio sem falhas da sua sociedade civil que, em certo sentido, emergiu em torno da questão do ambiente, deram os resultados esperados. É de crer que o funcionamento democrático de Tuvalu não seja alheio a este despertar. Apesar dos meios muito escassos, conseguiu-se interessar as instâncias internacionais pelas alterações climáticas, muito antes daqueles que hoje são muitíssimos a se apresentarem como arautos desta causa. Foi uma política de comunicação bem sucedida. O mundo inteiro rende-se a este pequeno país.
Consenso e envolvimento colectivo
O consenso dos responsáveis políticos de Tuvalu sobre a problemática do clima também envolve a sociedade civil, que é relativamente forte. A Associação das Organizações Não Governamentais de Tuvalu, TANGO, agrupa cerca de cinquenta estruturas orientadas para sectores diferentes, embora todas se ocupem, em maior ou menor grau, dos riscos associados ao clima. Todas se unem em volta do Governo para sensibilizar os responsáveis, tanto no exterior como no interior, para esta questão. Annie Homasi, directora da TANGO, personalidade em foco nos fóruns altermundialistas, fala-nos, de entre outros temas, da coordenação entre a sociedade civil e o poder político.
Com matizes, apesar de tudo
Há um amplo consenso nas posições governamentais face aos riscos climáticos. Um dos raros a mitigar este consenso foi o reverendo Kitiona Tausi, que acrescenta a questão dos riscos climáticos às outras divergências que o opõem ao Governo sobre questões ideológicas. Para ele, o Governo assinou o Protocolo de Quioto, mas optou por uma instalação petrolífera destinada a fornecer electricidade às outras ilhas do país, em vez de fomentar a energia solar. A título informativo, recorde-se que a sua igreja utiliza painéis solares. Critica igualmente o Governo pela decisão de deslocar parte da população tomando, na sua opinião, uma medida inaceitável, embora reconheça que alguns padres comungam da posição do Governo.
Siuila Toloa, professora da Escola Primária de Nauti, presidente da Island Care, ex-secretária-geral da Cruz Vermelha de Tuvalu durante 21 anos, insiste, por exemplo, na responsabilidade colectiva, incluindo a da população de Tuvalu, na procura de soluções para o problema. No entanto, o seu SOS não se destina apenas aos grandes poluidores. "O aquecimento global só pode ser resolvido se todos trabalharmos na mesma direcção. Pelo menos, reduziremos os danos. A causa dos danos não é Tuvalu, como também não é aquilo que arde em África que nos ameaça. Estou a pensar nos países que não assinaram o Protocolo de Quioto. A esses peço: 'Ajudem-nos, senão o meu país afundar-se-á'", afirmou.
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1 comentário
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#1 Ann wrote at 19.01.2010 08:21:
Thanks for information!