Reportagem
A Dominica: Paixão pela natureza e aposta no ser humano
Alguns confundem-na com a República Dominicana. Quando se descobre a Dominica, o que fica logo na memória é a sua “beleza selvagem”. E é verdadeiramente aquela “ilha da natureza”, como os seus habitantes gostam de designá-la. Contudo, a Dominica é ainda mais surpreendente, mais cativante do que este atributo, embora lisonjeador. O recente interesse em relação ao turismo verde é-lhe favorável e apesar da crise financeira internacional, enormes navios de cruzeiro fazem aí escala todos os dias, em frente às janelas dos hotéis à beira-mar de Roseau, a capital. Outra curiosidade, esta pequena ilha foi governada durante 15 anos por Eugenia Charles, a 5ª Presidente ou Primeira-Ministra eleita do mundo – a primeira do continente americano.
Murais “Massacre” de Earl Etienne, Petros Meaza e Lowell Royer / Massacre, Domínica, 2009.
© Hegel Goutier
Beleza selvagem e protecção social
Apesar de muitas das paisagens da Dominica serem geralmente acessíveis por estradas, a ilha seduz principalmente o novo turismo, atraído pelas caminhadas no seio de uma natureza virgem de uma beleza intacta, pela sua floresta tropical, as suas quedas de água, os seus rios e as suas curiosidades tais como o “Boiling lake”, ou ainda as suas fontes quentes e sulfurosas que escorrem ou brotam das profundezas geotérmicas. A Dominica é a ilha mais montanhosa das Caraíbas: quase sem planícies, com picos que atingem os 1500 m de altitude. Alia a modernidade à protecção da natureza selvagem, inclusive nas cidades. É igualmente um país que, embora baseado numa economia agrícola com todos os seus imprevistos, não conhece uma grande pobreza e beneficia de uma repartição das riquezas relativamente equilibrada, de um nível de instrução bastante elevado e de uma boa assistência médica. A esperança de vida, até bastante elevada, é igual para os ricos e para os pobres, sinal de um bom equilíbrio social e da preocupação dos seus governos sucessivos em investir no ser humano. O sistema de protecção social e de saúde é eficaz. A esperança de vida na Dominica – 75 anos, ou seja 14 anos a mais do que a média mundial – coloca a ilha numa excelente posição. Contudo, o que faz com que este país se destaque é o número bastante elevado de pessoas centenárias, 22 em 2002 para 70.000 habitantes, sendo na altura Ma Pampo a mulher mais velha do mundo, falecida em 2003 com 128 anos; uma das suas vizinhas era 13 anos mais nova.
O país oferece ainda uma certa qualidade de vida, segurança e afabilidade nas relações humanas. É frequente um estrangeiro ser abordado, numa aldeia ou em Roseau, por um Dominicano apenas para lhe desejar as boas-vindas e a conversa alongar-se.
A Dominica é um país agrícola. Ao contrário de outras pequenas ilhas, a população não está concentrada na capital. Pouco mais de um terço dos habitantes vivem em Roseau ou nos arredores. Embora tenhamos assistido recentemente a um êxodo rural, em consequência dos ciclones que destruíram as plantações – aos quais se acrescem as dificuldades dos produtores de banana (o primeiro produto de exportação) causadas pela erosão das preferências no mercado da União Europeia.
Cultura. Mistura de línguas, religiões, povos
Sendo igualmente um país anglófono, a Dominica fala o mesmo crioulo “francês” que os territórios franceses da América, o Haiti. Situa-se entre as ilhas de Guadalupe, a Norte, e de Martinica, a Sul, em pleno centro do arco das Antilhas, prologando-se entre a Florida e a Venezuela. Como em todas as ilhas das Caraíbas, a Dominica possui uma população e uma cultura mestiça, apesar da maioria dos seus habitantes terem origens africanas. A ilha é uma das poucas ilhas das Caraíbas insulares a possuir ainda uma minoria ameríndia (Caribes), um pouco menos de 2500 para uma população de cerca de 70.000 habitantes. Mistura entre o francês e o inglês, entre as influências europeias, africanas e ameríndias, às quais se acrescem as dos recém-chegados da região e da Ásia; mistura religiosa entre o protestantismo e o catolicismo romano, mais as crenças de África e da sua população autóctone, sem esquecer uma forte presença do movimento político-religioso Rastafári. Seis dominicanos sobre dez são católicos praticantes e o ensino desta religião é forte, tanto no plano moral como no plano político. Aquando da visita do Correio, concentrações de grupos de oração em Roseau, por ocasião da Semana Santa, reuniam geralmente, num só local, cerca de duas mil pessoas, um número considerável à escala do país. Todos eles animados por predicadores que usam o cenário, o tom e a veemência dos seus mediáticos congéneres dos Estados Unidos e condenam os desvios da moral, tais como os devaneios sensuais do carnaval. O carnaval conhece, no entanto, um grande sucesso todos os anos. Cultura mista!
Uma história de resistência
Apesar de a Dominica ter sido descoberta por Cristóvão Colombo desde Novembro de 1493, apenas um ano após a sua chegada às Caraíbas, a ilha só foi ocupada um século e meio mais tarde, tendo sido defendida com fervor pelos audazes guerreiros caribenhos, mas também graças à sua topografia acidentada. Não era, aliás, assim que se chamavam os Índios caribenhos – a palavra advém de um erro por parte de Cristóvão Colombo – mas Kalinago. A primeira chegada do navegador genovês teve lugar no dia 3 de Novembro, um domingo daí o nome Domenica dado à ilha, que os seus ocupantes honravam com o nome encantador de Waitikubuli (Esguia é a ilha/Esguio é o seu corpo)* para designar esta ilha surgindo abruptamente do mar. Por volta da segunda metade do século XVI, os navios espanhóis que navegavam na região tinham um local de abastecimento na ilha, em Prince Rupert Bay. O local foi também utilizado a seguir pelos navegadores franceses, ingleses e holandeses. Em 1569, viviam 30 espanhóis e 40 africanos no meio dos Índios Kalinago. Entre os aventureiros ilustres que aí encontraram assistência, encontram-se Sir Francis Drake, Georges Clifford Earl of Cumberland e o Príncipe Rupert do Reno.Alguns flibusteiros franceses instalar-se-ão na ilha muito mais tarde, seguidos pelos ingleses e os holandeses cada vez mais numerosos. Em 1625, os Kalinago iniciaram uma guerra defensiva contra os ocupantes. Contudo, tiveram de se retirar devido à sua inferioridade numérica e à falta de munições. Passariam doravante a arbitrar os conflitos intercoloniais, encontrando-se entre os últimos da região a serem colonizados. Em 1627, o inglês Earl of Carlisle declara a soberania do seu país sobre várias ilhas situadas à volta da Dominica. Os franceses fizeram o mesmo. Relativamente à Dominica, os dados apenas foram lançados em 1805, data em que a Inglaterra venceu, após a destruição completa de Roseau pelos franceses. Nesse espaço de tempo, os Kalinago jogaram frequentemente um contra o outro.
A colonização inglesa, após a Primeira Guerra Mundial, irá conceder cada vez mais liberdade de autogestão à ilha, doravante habilitada a eleger os seus representantes locais. A Dominica passa a um sistema de autonomia em 1967, no quadro do Estado Associado das Caraíbas (West Indies Associate State) e torna-se independente em 3 de Novembro de 1978, sendo Patrick John, do Dominica Labor Party, nomeado Primeiro-Ministro. Este demitir-se-á alguns meses mais tarde, devido a alegados actos de corrupção. Ao mesmo tempo, a ilha foi devastada por um furacão. Em Junho de 1980, Eugenia Charles venceu as eleições, como cabeça-de-lista do Dominica Freedom Party (DFP).Vencerá mais duas eleições gerais, permanecendo 15 anos no poder. Resistiu a duas tentativas de golpe de Estado, apoiou enquanto Presidente da OECS (Organisation of Eastern Caribbean States) a invasão americana de Granada em 1983 e ficou conhecida como a Dama de Ferro das Caraíbas. Embora permanecendo membro da Commonwealth britânica, o novo Estado optou em 1989 por um sistema republicano e o seu chefe de Estado é um presidente dotado de um poder protocolar, sendo o Primeiro-Ministro o chefe do governo.
Presentemente, o país é dirigido por um jovem Primeiro-Ministro, membro do Dominica Labor Party, Roosevelt Skerrit, o qual subiu ao poder em 2004 com 31 anos.
* Tall is her body.
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